Educação: ideário e compromisso
Há 58 anos, quando de sua fundação, as premissas educacionais que alicerçavam o Projeto do Colégio Santa Cruz se definiam como o ideário de uma formação humanista e multidimensional, uma pedagogia que se incumbiria do homem em sua totalidade. Tais premissas ainda norteiam nosso trabalho, já que são a base permanente e estável sobre a qual se erigem os conceitos e as condições da cultura e da civilização, dos quais a educação se ocupa.
Em linhas gerais, tanto para os gregos quanto para os primórdios da universidade, a concepção humanista se referia às coisas dos homens, em oposição ao espaço consagrado às coisas de Deus — reduto dos estudos teológicos. A educação humanista partia do princípio de que o conhecimento se assenta sobre a tríplice cabeça da razão, constituída pela memória (o acervo do passado), pela inteligência (a construção presente) e pela previdência (os projetos para o futuro). As áreas de conhecimento se subdividiam em dois conjuntos curriculares: o trivium, composto pela Lógica, Gramática e Retórica, e o quadrivium, que abrangia a Aritmética, a Música, a Geometria e a Astronomia. Tais áreas de conhecimento consistiam nas chamadas humanidades, separadas dos conhecimentos religiosos. Os alicerces que sustentavam tal proposta educacional eram representados por dois campos de saber: o Organum de Aristóteles, que a um só tempo fundou a Ciência e estruturou o pensamento lógico, e a Moral de Sêneca, que pretendia conduzir o homem educado com bases em um comportamento coerente às regras e aos valores de um bem comum.
É esse componente ético que opõe o humanismo à noção de individualismo, já que a educação humanista conceitua o humano de forma generalizada e ideal. Acima do homem como ser gregário ou como eu autônomo, ergue-se o homem como ideia universal. Embora permanentes, os fundamentos segundo os quais deveriam ser formados e educados os indivíduos não eram um modelo fechado, fixo e independente do espaço e do tempo. Eram uma forma viva que se desenvolvia junto à comunidade e que persistia através de mudanças históricas; eram a tradição que recolhia e aceitava todas as transformações inerentes ao desenvolvimento histórico.
A formação humanista ainda hoje pressupõe o homem integral: a educação deve-se dirigir ao conhecimento, à conduta ética e à atitude interior. Nenhuma dessas dimensões nasce ao acaso: são produtos de uma orientação coerente por parte do educador e de uma disciplina consciente por parte do educando.
A educação instrumentaliza e sustenta a cultura. Sua meta e essência consistem em humanizar, ou seja, formar indivíduos capazes de ação e pensamento autônomos, considerando-se, porém, que o valor de tal pessoalidade e inteligência dirige-se ao bem-estar da comunidade. A escola serve à vida, e à vida de todos. Por isso a escola deve orientar o jovem na descoberta de si mesmo, na construção de sua cidadania e na busca de sua finalidade transcendente, aberta para o sentido da vida e da verdade.
Esses princípios são vivenciados através do cotidiano pedagógico, que abrange a atuação da equipe de educadores junto aos alunos e o convívio entre eles, bem como o conjunto das disciplinas e atividades que compõem o quadro curricular do Colégio.
A orientação católica do Santa Cruz compromete seu ideário de educação com os valores cristãos e a difusão da mensagem evangélica. Especialmente a partir de 1980, quando a Congregação de Santa Cruz estabeleceu o Marco Referencial, educadores do Colégio se engajaram numa atuação voltada à conscientização de seus alunos com relação às injustiças e à solidariedade com a causa humana.
Essa estrutura pedagógica, porque fundada no desenvolvimento global, inclui, naturalmente, o âmbito afetivo de cada ser que aprende, ou seja, o amor à vida, o desejo de inventar e a alegria. Padre Charbonneau afirmava que a educação do Santa Cruz foi organizada com o propósito de "fazer o adolescente encontrar-se em si mesmo e abordar a vida no sentido da felicidade, da liberdade feliz". Sem esse elogio à existência, que cerca todo e qualquer desejo de criar, transformar, buscar, não seria possível suscitar nos jovens o sentido essencial da atividade educativa.
A pedagogia desses 58 anos no Colégio Santa Cruz vem-se ajustando e se antecipando às necessidades determinadas pelas mudanças sociais e pelas alterações de expectativas da própria juventude a quem nos compete corresponder. Entretanto, se é impossível permanecer vivo e atuante sem aceitar a imposição de transformar-se, de apontar para o futuro, de rejeitar a estagnação, por outro lado, os princípios que nasceram junto à idealização deste Colégio permanecem inalterados e constituem o código que conduz e orienta nosso cotidiano.
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