Colégio Santa Cruz

Colégio Santa Cruz - Instituição - Histórico

Ex-Alunos

Estas páginas são, por um lado, memória: espaço destinado à história vivida, que se alinhava com antigos textos e fotos. Por outro lado, são um ponto de reencontro no presente, de novas trocas e reconhecimentos.

Clique aqui para visitar as páginas exclusivas dos ex-alunos, com listas de nomes, fotos, textos e mensagens. Leia, abaixo,  histórias selecionadas para representar a memória coletiva do Colégio:

Ex-Professores

Ademar Fogaça Pereira
Alcino Izzo Júnior Alessandro Bender Verrone
Almenor Tacla
Álvaro César Giansanti
Amauri Mário Tonucci Sanchez
Ana Laura Godinho Lima
Ana Lúcia Lana Nemi
Ana Lúcia Teixeira Ribeiro
Ana Maria Bruner
Anamelia Bueno Buoro
André Eterovic
Anne Verônica Horner Hoe
Antonietta Moreira Leite
Antonio Aparecido Primo
Antonio Celso Breda
Antonio da Silveira Mendonça
Antonio di Giorgi Filho
Antonio Ernesto Pasqualim
Antonio Joaquim Severino
Antonio Penalves Rocha
Antonio Ribas Kosloski
Antonio Rodrigues Palma
Antonio Silvio Vieira de Oliveira
Aparecida Mazão
Aparecido Cambraia Borges
Araceli Martins Elman
Arcílio Tavares
Arlete Jesus Brito
Armando Toshiharu Tochibana
Astor Guimarães Dias Filho
Benauro Roberto de Oliveira
Carla Milani Damião
Carlos Alberto Harnik Gebara
Carlos Alberto Ricardo
Carlos Alberto Silva
Carmen Cecília de Souza Amaral
Carmen Galvão Carvalho
Carmen Sylvia de Oliveira Franco
Cássia Tereza de Magalhães Maeoca
Cíntia Gomes da Fontes
Claude Jean Philippe Joubert
Cláudia Dias Pestana Silva
Claudia Kober Ostronoff
Constantino Agazzi
Daise Carvalho Bastos
Dalila Saba Utimati
Danilo Danzelli Alves
Denize Ponz Abdo
Deoclides Augusto Gomes Júnior
Divino Marroquini
Dora Rocha Awad
Edda Olza Janotti
Edith Ângelo Chiurco
Edson Lima Gonçalves
Elenir Pires Martins
Eliana Borelli
Eliane Lagos Mentoni
Eliete Bindi
Elizabeth Loureiro Zink
Elizabeth Prescher Martins
Erdna Perugine Nahum
Ernestina de Lourdes Cardoso
Eunice Maria Muniz Rossa
Ezio Penso
Fabio Laerte Tonello
Flávio di Giorgi
Flávio Vespasiano Di Giorgi
Francisco Maria Pires Teixeira
Gabriela Fortes Celidonio
Gastone Rinaldi
Gilda Rastelli Mont de Menezes
Divino Marroquini
Guilherme Lustosa da Cunha
Helena Maria Medeiros Lima
Heloísa Fernandes Gebara
Henrique Vailatti Filho
Ioshihiro Higuchi
Isabel Ciasca Ribeiro dos Santos
Isame Maeoca
Ivete Ribeiro

Izaura Angela Romagnoli
Jairo Fernando de Jesus Freitas
João Affonso Pascarelli
João Josué da Silva Filho
João Ribeiro
João Valdecir Bastistioli
Joelza Ester Domingues
Jorge Antonio Ribeiro da Silva
José Antonio Galego
José Carlos Bissoli
José Leopoldino de Azevedo
José Luiz Beraldo
José Manoel Moran Costas
José Maria Soares de Oliveira
José Pinto de Magalhães
José Roberto Borsari
José Salvador Faro
Kenia Lea Curci
Laura Maria Lacombe de Góes
Leylah Maria Barbosa de Carvalhaes
Lia Cintra Rolim
Lígia Marília Fornari
Lilia Katri Moritz Schwarcz
Lilian Nass Perri
Lúcia Helena de Almeida Esteves
Lúcia Helena Rocha C. da Silva
Lucy Sayão Wendel
Luiz Antonio de Souza Amaral
Luiz Antonio Lima de Novais
Luiz Barco
Luiz Bertelli Neto
Luiz Carlos Brengel
Luiz Dagobert de Aguirra Roncari
Luiz Gonzaga Calazans
Luiz Roberto da Silva Oliveira
Luiz Roberto da Silveira Castro
Luiza Gianetti Vianna
Manoel Carlos Vieira
Mara Ramos Mellis
Marcelo Rezende
Márcia Lygia R. de S. Casarin
Marciana Borges de Freitas
Marcos Miani
Marcus Vinicius M. Marinho
Marguerith Abdallah Sader
Maria Alice Setubal Souza e Silva
Maria Amabile Mansutti
Maria Aparecida Marralhais Peixoto Amaral Silveira
Maria Augusta Cabral de Oliviera
Maria Beatriz de Sampaio Leite Bender
Maria Cecília Doneux Santos
Maria Cecília Falcão Botelho
Maria Cecília Paixão Souza
Maria Célia Leme da Silva
Maria Célia N. Pires de Campos
Maria Cristina Cortez Wissenbvach
Maria de Lourdes Camargo Lopes
Maria de Lourdes Canto
Maria de Lourdes Guedes Genestreti
Maria Elci Spaccaquerche
Maria Elisa Curti Salomé
Maria Idalina Bittencourt
Maria Ignes Salgado de Mello Franco
Maria José Brandão Machado
Maria de Lourdes Mattos Morello
Maria Lúcia de Arruda Aranha
Maria Luíza di Monaco
Maria Paula de Lima Gonçalves
Maria Regina Fortes Celidonio
Maria Salete Toledo U. Moreira
Maria Stella Camargo Carvalho
Maria Victoria F. Thompson
Mariett Regina Rozner Azevedo
Marília Mattos Morello
Marília Pires Galvão Carvalho
Marina Braga Sampaio Lara
Marina Marcondes Bojikian
Marina Marguerita Nugent Cunha
Marina Martins de Oliveira
Mário Suzuki

Marta Maria Castanho Almeida Pernambuco
Martha de Barros Penteado Junqueira
Mary Cecília Bacalarski
Maurício Monteiro Alves
Milton Nascimento Marcelo
Mirian Maria Guerrieri
Myriam Oliveira Quartim Barbosa
Neide Simões de Mattos
Neide Soares de Oliveira
Nelio Marco Vicenzo Bizzo
Nelson Al-Assal Filho
Nelson Bacic Olic
Neuza Eunice Pommer
Newton Ramos de Oliveira
Nicia Dulce Wendel de Magalhães
Nilson José Machado
Nivia Gomes Basile
Olga Mil-Homens Costa
Onélia Maria Camargo
Oswaldo Maria Coronato
Oswaldo Sangiorgi
Paulo da Costa Pan Chacon
Paulo Eduardo Zanettini
Pedro Campos Alcover
Regina de Mello M. Averoldi
Regina Ralickas Malisia
Reginaldo Salvador Bissoli
Regis Berthola Facca
Remo Alberto Fevorini
Renate Gompertz Watanabe
Rene Francois Joseph Charlier
Ricardo Costa Mesquita
Ricardo Marques de Azevedo
Roberto Wendel Isoldi
Romeu Ribeiro dos Santos
Rosa Maria Miguel
Rosa Regina Barbuy Wilheim
Rosana Imparato Giannocaro
Rosana Meire Giannoni
Rosely Cabral Giordano
Samuel Dominella Franco
Sandra Regina Mutarelli
Sérgio Haddad
Sérgio Paulo da Silva
Silvia Celeste Barbara
Silvia de Almeida Prado
Silvia Epaminondas de Almeida
Silvia Judth Hamburger
Simone Kubric
Sônia Amaral Gama Neiva
Sônia Marina Muhringer Tokitaka
Spero Penha Morato
Suzana Paiva de Barros Dias
Telmo Correia Arrais
Teofilo Artur da Siqueira Cavalcant Neto
Theophilo Darcio Guimarães
Thereza Ferreira da Silva
Thomaz Bittelli
Tito de Alencar Lima
Umile Calasso Sobrinho
Vera da Cunha Bueno
Vera Lúcia Soares Novais
Vera Patrícia Nicol Giusti
Vicente Emygdio Alves
Waldecy Tenorio de Lima
Walter Spinelli
Wanda da Costa Cervi
Zilda Zerbini Toscano
Zulmira Pesqueira Mendonça



Diretores Gerais

Luiz Eduardo Cerqueira Magalhães
Diretor Geral do Colégio Santa Cruz de 1993 a 2010

Licenciado em Física pela Universidade de São Paulo, Luiz Eduardo Cerqueira Magalhães entrou no Colégio Santa Cruz em 1969, recém-formado, como professor de Matemática e Física.

Sua carreira na administração escolar começou a se desenvolver também no Santa Cruz, em 1973, quando os padres canadenses que fundaram o Colégio vinte anos antes iniciaram um progressivo processo de laicização dos cargos de direção. Luiz Eduardo foi escolhido e preparado para sucedê-los na Direção Geral do Colégio, o que ocorreu em 1993.

Sua dedicação à causa da educação levou-o a assumir outras responsabilidades, além do Colégio Santa Cruz, com destaque para sua atuação, desde 1986, no Conselho Estadual de Educação, dirigindo câmaras, comissões e o próprio Conselho, que presidiu de fevereiro de 2004 a agosto de 2005.

Padre Lionel Corbeil
Diretor Geral do Colégio Santa Cruz de 1952, ano da fundação, a 1992

Desde sua chegada ao Brasil, em 1943, quando fundou a Congregação de Santa Cruz em São Paulo e a Paróquia de "São José de Jaguaré", alimentava o sonho de criar um colégio. Sua certeza na educação como transformadora da realidade e sua reconhecida tenacidade foram determinantes para a fundação do Colégio Santa Cruz, em 1952.

Inicialmente uma casa emprestada e com sessenta alunos, o Colégio adquiriu sob sua direção as dimensões de hoje: não apenas as físicas, em uma área com amplas instalações no Alto de Pinheiros, mas também as pedagógicas, com o compromisso de se reinventar continuamente, acompanhando as transformações da juventude.

Além de ter exercido o cargo de Diretor Geral até 1992, Padre Corbeil deu aulas de Sociologia no Colégio. Sua presença na educação brasileira, no entanto, não se restringiu ao Santa Cruz, destacando-se sua atuação como presidente da Associação de Educação Cristã, durante mais de vinte anos, e como membro do Conselho Estadual de Educação.

Padre Gilles Beaulieu
Fundou, ao lado dos padres Corbeil e Picard, o Colégio Santa Cruz, em 1952. Formou-se em Psicologia pela PUC-SP e atuou no Colégio como professor de Francês e Coordenador Pedagógico. Substituiu o Padre Corbeil como Diretor Geral entre os anos de 1962 a 1967.

Congregação de Santa Cruz

A Congregação de Santa Cruz foi fundada pelo Pe. Basílio Moreau no agitado período que se seguiu à Revolução Francesa. Era um sacerdote da cidade de Le Mans e, para atender na zona rural às necessidades de uma Igreja devastada, planejou a organização de alguns clérigos como "Padres Auxiliares". Em agosto de 1835, começou a reunir padres para esse objetivo. Não passavam de alguns poucos e ajudavam o clero diocesano pregando missões paroquiais. Moreau tinha o desejo também de que fossem educadores e que para tal atividade alguns se preparassem.

Em 1837, juntou aos padres um grupo de leigos zelosos que buscavam atender às necessidades na área da educação primária nas aldeias da França. Esses leigos tinham sido reunidos pelo Pe. Dujarié sob o nome dos Irmãos de São José. A união desses dois grupos — padres e leigos consagrados — buscava responder às necessidades pastorais e educacionais da Igreja da França.

Em 1838, Pe. Moreau redige uma regra de vida para um pequeno número de mulheres voltadas à prestação de serviços domésticos aos padres e irmãos. Mais tarde, haveria de orientá-las também para o trabalho educacional.

Desde o início, Padre Moreau viu nessa "Associação de Santa cruz" uma comunidade religiosa apostólica a serviço da Igreja muito além das fronteiras do seu próprio país. Durante os primeiros quinze anos, quando o grupo era ainda pequeno, só aos poucos se organizando, o seu campo de apostolado já se espraiava para bem além da França, não só em outros países da Europa, como também na África e na América do Norte. Foi a decisão de aceitar a difícil missão em Bengala, então parte das Índias, que levou a Congregação da Propaganda de Fé a aprovar a comunidade do Pe. Moreau como uma congregação religiosa sob a égide não mais da diocese local de Le Mans, mas da Igreja de Roma, para servir no mundo todo.

A Santa Sé decidiu em 1855 que os homens e as mulheres deveriam organizar-se separadamente. No dia 13 de maio de 1857, as Constituições dos Padres e dos Irmãos foram aprovadas, e as duas sociedades fundiram-se numa unidade mais estreita, organizando-se sob uma estrutura governamental compartilhada em todos os níveis e não somente ao nível da instância mais elevada da autoridade. As áreas pastorais que padres e irmãos aceitaram como suas foram duas: pregação da Palavra de Deus, especialmente no campo e nas missões além-mar, e educação cristã em escolas, bem como treinamento agrícola e profissional, especialmente para as crianças pobres e abandonadas.

Este breve relato histórico ajuda a compreender a missão da Congregação de Santa Cruz no Brasil. Muitos anos se passaram desde sua fundação; é, no entanto, o mesmo carisma inicial que anima a Congregação na sua tarefa educacional, tanto no Colégio Santa Cruz como no seu Projeto Social na favela Vila Nova Jaguaré.

Pe. Roberto Grandmaison,
publicado em 10 de setembro de 2006.

Padres do Colégio

Breve biografia dos padres que trabalharam no Colégio

Padre André Roussel: inicia seu trabalho em 1957, já no Alto de Pinheiros, como responsável de classe, assumindo em seguida aulas de Religião no Ginásio. Introduz muitos alunos ao trabalho da Organização de Auxílio Fraterno (OAF), que consistia em visitar, noite adentro, a população de rua para levar-lhes um pouco de conforto.

Padre Claude Parent: deixando o ofício de pároco de São Vito, no bairro do Brás, em São Paulo, vem em 1954 ao Colégio, onde leciona matemática, missão que cumpre com paixão por longos anos. Especializado em catequese na Bélgica, torna-se professor de destaque de Religião, sendo estimadíssimo pelos alunos também como mestre e conselheiro espiritual. Exerce o cargo de Diretor do Curso Ginasial por alguns anos e inicia a Festa dos Esportes – desde então, um dos eventos permanentes do Colégio, interrompido apenas no ano em que padre Cláudio vive na Bélgica. Sua iniciativa de ajuda aos moradores da favela então formada na atual Avenida Arruda Botelho leva à criação do Serviço de Auxílio aos Necessitados: até hoje vivo, o SAN, com sede estabelecida à rua São Bento do Sul, vizinha ao Colégio, é um dos organismos em que a ética da solidariedade se concretiza no Santa Cruz.

Padre George Picard: recém-chegado do Canadá nos fins de 1951, integra a equipe dos fundadores do Colégio, juntamente com os padres Corbeil e Gilles. Ensina francês e atua como coordenador pedagógico no Ginásio, destacando-se como assessor da bibliotecária por dinamizar sobremaneira esse setor.  Dotado de temperamento artístico, torna-se incentivador de atividades como as exposições de final de ano. Por sua iniciativa, o Plano Diretor do Colégio Santa Cruz passa a ser lançado anualmente.

Padre Gérard Laporte: chega do Canadá no final de 1954 e já no ano seguinte assume tarefas de acompanhamento de classes. Torna-se professor de inglês e, mais tarde, após cursar Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), exerce essa sua competência no Colégio.

Padre Gilles Beaulieu: funda, ao lado dos padres Corbeil e Picard, o Colégio Santa Cruz, em 1952, na mansão da Avenida Angélica. Durante alguns anos, exerce o cargo de Diretor, tendo sido o único padre além de Corbeil a exercer essa função. Durante toda a sua permanência no Colégio, atua como Coordenador Pedagógico do Curso Ginasial e, posteriormente, também do Colegial, como se chamava à época o Ensino Médio. Forma-se em Psicologia pela PUC-SP, fazendo valer no Colégio a sua competência nessa área. Leciona francês, primeiramente no Ginásio e depois no Colegial.

Padre José Amaral de Almeida Prado: inicia o ano de 1955 como professor de Latim e Religião, ao mesmo tempo em que cursa, na Rua Maria Antônia, na USP, Letras Neolatinas. Passa em seguida a lecionar também português. É parte ativa na implantação do Curso Experimental no Ginásio segundo a metodologia de Lubienska e Montessori. Durante sua atuação como Diretor do Ginásio, cria uma equipe de Direção composta de professores leigos, inicia as reuniões regulares de docentes, institui o Conselho de Professores como instância de avaliação e inaugura um sistema de recuperação mais sofisticado.

Padre Laurent Roberge: chega ao Brasil em meados de 1968, faz curso de português em um instituto de língua e cultura brasileira de Petrópolis, RJ, e já em 1969 assume com competência a coordenação do Ensino Religioso no antigo Ginásio. Estabelece clara distinção entre o Ensino Religioso, obrigatório, e a Catequese, para os que praticam e desejam aprofundar a fé católica. Escreve vários livros de cunho catequético. Zeloso no cumprimento de sua missão, torna-se conhecido e estimado.

Padre Léo Morin: professor de Ciências Naturais na Universidade de Montreal, Canadá, chega ao Brasil no início de 1957, pouco antes de completar sessenta anos e no dia em que se iniciam as aulas no Alto de Pinheiros. Exímio marceneiro, monta os laboratórios de Ciências do Colegial e, por não dominar bem o idioma português, limita-se a acompanhar os alunos em experiências que ele mesmo prepara. Falece na residência dos padres no dia de Finados de 1961.

Padre Lionel Corbeil: desde sua chegada ao Brasil, em 1943, quando funda a Congregação de Santa Cruz em São Paulo e a Paróquia de São José de Jaguaré, alimenta o sonho de criar um colégio. Sua certeza na educação como transformadora da realidade e sua reconhecida tenacidade o levam à fundação do Colégio Santa Cruz, em 1952. Inicialmente em uma casa emprestada e com sessenta alunos, o Colégio adquire sob sua direção as dimensões de hoje: não apenas as físicas, em uma área com amplas instalações no Alto de Pinheiros, mas também as pedagógicas, com o compromisso de se reinventar continuamente, acompanhando as transformações da juventude. Além de atuar como Diretor Geral até 1992, Padre Corbeil leciona Sociologia no Colégio. Sua presença na educação brasileira, no entanto, não se restringe ao Santa Cruz, destacando-se sua atuação como presidente da Associação de Educação Cristã, durante mais de vinte anos, e como membro do Conselho Estadual de Educação.

Padre Maurice Larivière: vem ao Brasil no fim de 1960, destinado a assumir o professorado de física no Colegial. Para isso, cursa a graduação na Universidade de São Paulo (USP). Subitamente, porém, falece de colapso cardíaco em 1966, enquanto ministra, como prova didática, uma aula de física no Colégio Experimental do Estado. É lembrado por sua simplicidade e bom humor. No bairro Alto de Pinheiros há um rua que leva seu nome.

Padre Paul-Eugène Charbonneau: chega ao Brasil em 1959 para lecionar Filosofia no Colégio Santa Cruz. Estimadíssimo pelos alunos, transmite-lhes a atitude crítica, o respeito à diversidade de pensamento, o amor à vida e às coisas do espírito. De 1965 até sua morte precoce, em 1987, exerce o cargo de vice-diretor, demarcando os princípios que sustentam a filosofia e a ação educacional do Colégio. Estudioso, arguto, polêmico, torna sua presença perene através de sua obra, extensa, com títulos que abarcam questões relativas a sexualidade, drogas, adolescência, educação, Deus, casamento, ciência e política.

Padre Paul Grénier: deixando o ofício de pároco de Jaguaré, integra, a partir de 1953, a equipe dos padres no Colégio como professor de Latim e Religião. Além de educador, destaca-se como administrador e ecônomo do Santa Cruz. Durante a construção do Colégio em Alto de Pinheiros, presta inestimável serviço, acompanhando passo a passo as obras em andamento. Anos mais tarde, torna-se o mentor da transição da Direção do Colégio para as mãos dos leigos.

Padre Roland Jalbert: trabalha durante pouco tempo no Colégio, atuando como conselheiro espiritual no início dos anos 1960. Especializado pelo instituto Lumen Christi, na Bélgica, também leciona Religião. Incentiva os Acampamentos Missão, realizados entre os caiçaras do litoral norte, experiência que teve continuidade no Colégio.

Padre Valmond Richard: chega em 1967 ao Brasil, já dominando o português, que aprendera em um instituto de idiomas no Canadá. Durante mais de dez anos, atua como conselheiro espiritual e animador da liturgia, principalmente no Colegial. Formado em Psicologia pela PUC-SP, exerce a sua competência no Colégio. Dá continuidade às experiências dos Acampamentos Missão.

Padre Yvon Lafrance: tendo chegado ao Brasil no final de 1955, leciona francês no ginásio. É o responsável pela implantação do Curso Experimental segundo a metodologia de Lubienska e Montessori, que dura de 1959 a 1963, completando o ciclo ginasial. Realiza a graduação e o doutorado em Filosofia na PUC-SP.

Padre Yvon Laurence: chega ao Brasil em 1963, trabalhando por breve período no Colégio. Dominando plenamente o português, é transferido para Campinas, onde assume outras tarefas apostólicas.

Padres da Congregação

Breve biografia dos padres que não trabalharam no Colégio

Padre Oscar Melanson: um dos três fundadores da Congregação de Santa Cruz no Brasil, ao lado dos padres Lionel Corbeil e Guillaume Dupuis. Inicialmente trabalha em São Paulo como assistente da Juventude Universitária Católica, sendo em seguida transferido para o mesmo cargo na Juventude Operária Católica do Estado de São Paulo. Nesse organismo, assume responsabilidades em nível nacional, latino-americano e mundial. Retornando ao Brasil, vai para a nossa paróquia de Santa Teresa de Ávila em Campinas como vigário coadjutor. Em 1973 retorna ao Canadá. Falecido.

Padre Guillaume Dupuis: conhecido no Brasil como padre Guilherme, é um dos fundadores da Congregação no Brasil. Sua primeira atuação se dá como assistente das bandeirantes na cidade de São Paulo. Retorna ao Canadá em 1951, após permanecer durante cinco anos como pároco de São José do Jaguaré. Falecido.

Irmão André Fortin: trabalha no Brasil de 1947 a 1952, colaborando para a construção da Igreja de Jaguaré e a adaptação do imóvel da Avenida Higienópolis para a instalação do então Ginásio Santa Cruz. Retorna, em seguida, ao Canadá. Falecido.

Irmão Antonin Campbell: chega ao Brasil em 1952 e permanece em Jaguaré até 1970, quando se desliga da Congregação. Ao longo desses anos, faz funcionar uma pequena fábrica de lampiões de parafina em benefício da paróquia de São José.

Padre Émile Dion: chega ao Brasil em 1952 e trabalha em Jaguaré até 1960 como vigário coadjutor primeiro, assumindo como pároco até 1960. Faz curso em Ciências Sociais no Institut Catholique de Paris. Vem ao país em 1963 para assumir o cargo de assistente da Ação Católica Operária (ACO), a partir da qual participa ativamente do movimento sindical operário de Osasco. Retorna ao Canadá em 1969. Falecido.

Padre José Bouchard: vem ao país em 1953, residindo inicialmente na paróquia de São Vito, no bairro do Brás, em São Paulo. No ano seguinte é transferido para Jaguaré, primeiro como coadjutor e em seguida como pároco. Faz, em 1966, um curso de atualização pastoral em Montreal, Canadá. De volta ao Brasil após um ano, assume a paróquia de Santa Teresa de Ávila em Campinas, onde até hoje exerce o mesmo cargo. Em 1980, no sul da França, realiza novo curso de atualização pastoral e teológica.

Padre José Araújo: após terminar, em 1962, os estudos em Montreal, Canadá, retorna ao Brasil. Até 1965, trabalha na Pastoral Vocacional, quando se desliga da Congregação, ingressando no clero secular no Estado da Paraíba.

Padre Luiz Carlos Brengel: em 1962 termina os estudos em Roma e retorna ao Brasil. Exerce o ministério sempre na paróquia de Jaguaré, inicialmente como coadjutor e, em seguida, como pároco. Desliga-se da Congregação em 1974.

Padre Laudeni Ramos Barbosa: brasileiro do Estado de São Paulo, ordena-se no dia 14 de dezembro de 1996. Desde então trabalha como formador no Postulantado de Jaguaré. É vigário coadjutor em São José do Jaguaré e mestrando em Sagrada Escritura na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção do Ipiranga, em São Paulo.

Padre Severino Gomes: nascido no Estado da Paraíba, ordena-se no dia 17 de maio de 1997. Desde então exerce o ministério na paróquia de São Felipe, em Mauá, primeiramente como coadjutor e depois como pároco.

Padre Jean-Pierre Jean-Gardy: haitiano, chega ao Brasil em 1994. Cursa Teologia na Faculdade Dominicana de Perdizes em São Paulo. Ordena-se em Les Cayes, no Haiti. Exerce o ministério em São José do Jaguaré como coadjutor e em seguida como pároco.

Padre Régis Firto: nascido no Haiti, onde durante seis anos atua como Superior do Distrito dos Padres de Santa Cruz, chega ao Brasil em 2001. Mestrando em Eclesiologia na Faculdade de Teologia Nossa Senhora Assunção do Ipiranga, em São Paulo, exerce a função de formador em nosso juniorato.

Padre Robert Grandmaison: canadense, chega ao Brasil em 1968. Após estágio de vários meses no CENFI, centro de aprendizado de português e iniciação à cultura brasileira, em Petrópolis, estabelece-se no Jaguaré, onde permanece até hoje. Tendo desenvolvido sua atividade apostólica inicialmente como diácono, ordena-se sacerdote alguns anos mais tarde, exercendo por duas vezes o múnus de pároco de São José de Jaguaré. Nos anos 1970 e 1980, destaca-se como militante dos Direitos Humanos na estrutura diocesana e em entidades civis. É responsável pelas creches beneficentes mantidas no Jaguaré pela Congregação de Santa Cruz, conveniadas com a Prefeitura de São Paulo e apoiadas pelo Colégio Santa Cruz.

Pe Corbeil

No rebuliço da memória

Histórias dos primeiros anos de Pe. Corbeil recompõem seu sorriso e revelam o nascimento do Colégio Santa Cruz, que fundou em 1952 e dirigiu por 40 anos.

A memória é matéria fugaz. Ocupam-na, dispostas de forma pouco conhecida, nossas vivências mais significativas; mas também, na mesma hierarquia, os registros mais triviais de nossos sentidos: vozes antigas, sabores de frutas suculentas, paisagens esplêndidas, conversas vagas, trechos de canções, pessoas, perfumes errantes, palavras...

Vasculhá-la em busca de resposta objetiva exige transigência com o rebuliço de lembranças que se levanta, muitas delas absolutamente impertinentes. Mas também leva tempo e, acima de tudo, demanda enorme força de vontade.

Pe. Corbeil, fundador do Colégio Santa Cruz e seu diretor durante 40 anos, quis dedicar grande parte do tempo que lhe restava a essa atividade. Com quase 80 anos, sadio e vital, aposentou-se e pôs-se a escrever e editar suas memórias, sem perder a chance de aprender informática, viajar e jogar golfe com os amigos.

Desde sua morte, em 23 de dezembro de 2001, o silêncio de seu sorriso generoso tem se sentido. Na apostila que traz suas memórias é possível reencontrá-lo, imerso no grande esforço despendido de síntese histórica e cronológica não só de uma vida, mas sobretudo de Santa Cruz, a Congregação e o Colégio.

Apresentamos, a seguir, uma seleção de relatos inspirada nas passagens em que o valor emotivo e prosaico, mesmo à revelia do disciplinado autor, transparece, repetindo histórias tantas vezes contadas por Corbeil nos corredores, refazendo sua trajetória e recompondo sua personalidade e seu sorriso. As informações sobre a história da Congregação e do Colégio foram utilizadas em outras seções desta revista.

Jean, como um irmão mais velho

Lionel Corbeil nasceu em Montreal dia 15 de janeiro de 1914, quinto de uma família de sete filhos. Seu pai, Emile, profundamente religioso e excelente administrador, chegou a ser o maior fabricante de sapatos do Canadá. Sua mãe, Gertrude, faleceu quando Lionel tinha 11 anos de idade. De ambos, Lionel guardava vívidas lembranças, registradas comgratidão em suas memórias. Entre os irmãos, destaca-se a afeição por Jean que, como padre de Santa Cruz, contribuiu muito com as obras de Lionel no Brasil. "Meu irmão Jean era dois anos mais velho do que eu. Fomos educados como gêmeos. Em casa, partilhamos o mesmo quarto.
Padre Jean, irmão de Corbeil: companheirismo para toda a vida.

Fomos juntos internos no Colégio Laval, dos Irmãos Maristas. Depois, aos 10 anos, eu fui para o Colégio Notre Dame, dos Irmãos de Santa Cruz, frente ao oratório São José. Encontrei-me de novo com ele dois anos depois, no Seminário Santa Cruz, onde firmei minha vocação sacerdotal e religiosa, e continuamos juntos os estudos com os Padres de Santa Cruz até a ordenação. As afinidades de ideais e a amizade entre nós eram tão grandes que, ao me ver partir para o Brasil, Jean sentiu a necessidade de adotar meu apostolado".

Cirurgião São José

Aos 18 anos, Corbeil ingressou no noviciado, onde pôde se dedicar à oração, ao estudo - de filosofia, ciências e letras - e ao hóquei! Corbeil sempre relatava a contusão que tivera, ao praticar esse esporte, no osso da bacia. Após consultar renomado especialista, a cirurgia parecia inevitável. Seu colega (hoje beato) Irmão André, contudo, recomendou com bom humor: "Seja operado por São José: cura rápido e custa barato". Deu-lhe, então, uma medalha de São José e indicou que a esfregasse na região dolorida com um pano, para não irritar a pele. Corbeil assim procedeu e esqueceu-se do assunto. Um ano depois, já no primeiro dos quatro anos de teologia, outra lesão o reconduziu ao médico especializado que, diante de novas radiografias, reconheceu a cura. Corbeil se surpreenderia para sempre: "Nunca mais tive dor nessa perna, até hoje, com meus 80 anos de idade".

Devoto de São José e bem-humorado, irmão André foi beatificado em 1982.

Três padres para o Brasil

Apenas quatro anos após sua ordenação, dois deles como professor de adolescentes e outros dois dedicados à administração e à ação católica, Corbeil foi convidado a fundar a Congregação de Santa Cruz em São Paulo. Sem hesitar, aceitou a missão e solicitou a liberdade de escolher os outros dois padres que seriam convidados. Pedido concedido, o modo de escolher seus colegas foi muito revelador. Ao invés de selecionar as duas pessoas, concentrou-se na escolha de uma delas: padre Oscar Melanson, "bom amigo, em quem confiava muito por ser um bom religioso, honesto, espiritual, inteligente, alegre e excelente companheiro". Depois de o amigo aceitar o convite, Corbeil delegou-lhe: "Eu te escolhi; você escolha o terceiro". Dias depois acatou a escolha do colega: padre Guilherme Dupuis, "bom religioso, amável, de bom relacionamento e grande entendedor de música".

Viagem, flagrantes da guerra

Montreal, estação central de trens, dia 8 de dezembro de 1943: "A despedida foi muito emocionante. Meus familiares tinham lágrimas nos olhos. Para nós que partíamos e para todos que ficavam, o Brasil era muito distante e também desconhecido". Em anos de guerra, as viagens de navio tornavam-se perigosas. Como viajar de avião era raro, a saída mais próxima para São Paulo era a distante cidade de Miami. Os primeiros cinco dias se consumiram nesse trajeto, com paradas em Nova Iorque e Washington. Foram necessários mais oito dias de espera para conseguir lugares para o vôo: "Naquele tempo os aviões comerciais eram pequenos, os famosos DC-3 de dois motores, com lotação de apenas 21 passageiros - e os militares tinham prioridade".

Por causa da guerra, os aviões não tinham autorização de viajar à noite, o que fazia do trecho até o Rio de Janeiro uma longa aventura de cinco dias. Na segunda noite, Corbeil registra a surpresa do canto das cigarras: "Para quem saiu da neve do inverno do Canadá dias antes, o contraste era muito forte". Ao passar por Natal (RN), no penúltimo dia, Corbeil observa: "Descemos numa longa pista, muito movimentada. No aeroporto, havia muitos soldados americanos pois era a rota dos aviões de guerra dos Estados Unidos: Natal, Dakar na África, para chegar depois à Europa".

Expansivos, os religiosos canadenses eram conhecidos como "padres cantores".

Cidade maravilhosa

Dia 26 de dezembro. Após o jantar oferecido pelo embaixador em sua casa, já refeitos da viagem, os padres põem-se a cantar ao piano o folclore canadense. A apresentação soou tão agradável que o embaixador os convidaria a passar o ano novo no Rio de Janeiro, aproximando-os para isso do Major Kenneth McCrimmon, que os hospedaria até dia 8 de janeiro em seu casarão. Esse encontro e a amizade decorrente seriam providenciais: "O Major, membro diretor da maior companhia canadense fora do país - a famosa Brazilian Traction de Toronto, conseguiu a doação do terreno do Colégio Santa Cruz".

São Paulo, 1944

Convidados pelo arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar Afonseca e Silva, para fundar uma paróquia operária e ajudar na fundação da universidade católica, os padres trataram logo de aprender o novo idioma e conhecer a cidade. Entre essas primeiras lembranças, Corbeil escreve suas impressões sobre São Paulo: "É uma grande cidade cosmopolita, de um milhão e trezentos mil habitantes, um pouco menor do que o Rio de Janeiro, capital do país. São Paulo, situada a mais de 700 metros de altura, é mais interessante para se viver e trabalhar graças ao clima agradável. Os paulistanos nos parecem dinâmicos e sérios. Mais antiga que Montreal, acabam de festejar o 390° aniversário da cidade. Seus arranha-céus, bem numerosos, são de um estilo moderno ousado e interessante. Maior cidade industrial do país, até com metalúrgicas, exporta muito café. No verão, o sol brilha quase todos os dias. Lá pelas 16h ou 17h, as nuvens pretas aparecem, chove intensamente mas por pouco tempo, e o sol vem nos sorrir de novo."

Paróquia do Jaguaré

Dois dias após a chegada em São Paulo, os padres foram apresentados a Henrique Dumont Villares, presidente da Cia. Imobiliária Jaguaré, que os convidou a fundar uma paróquia e dirigir uma escola na futura população do bairro industrial e residencial que se formava, oferecendo terrenos, casas e auxílio para erguer a igreja. Apesar de Jaguaré ser, na época, bairro periférico ("12 quilômetros do centro, por estrada de terra") e ermo (minguada população de 800 habitantes), os padres logo se interessaram por essa proposta, percebendo o rápido crescimento da cidade de São Paulo.

Dois anos depois, mudam-se para a recém construída residência no Jaguaré: "As plantas foram realizadas por um jovem arquiteto de grande talento, Dr. Villanova Artigas. Tudo de vidro do lado sul, com seis quartos, uma sala muito grande... Que beleza de casa".
As atividades no bairro nunca cessariam: pequena clínica de saúde, abertura da escola... Mas a grande obra, a igreja, não saía da planta. Somente após a doação do aplainamento do terreno, em setembro de 48, a construção começa.

Em dificuldades econômicas, os engenhosos padres organizaram uma pequena fábrica de lamparinas de parafina, "pois, nas igrejas do Brasil, queimavam-se velas de cera compridas que entortavam com o calor das outras e deixavam o ambiente muito sujo... Essa fabricação, que aprendemos durante nosso noviciado, ajudou durante anos a nos sustentar e manter nossas obras apostólicas".

Em 51, a igreja seria aberta ao culto. O término da construção de São José do Jaguaré ficou para 67.

A conclusão da igreja de São José do Jaguaré exigiu grande esforço dos padres de Santa Cruz.

Aplausos universitários

Assim que soube dos dois anos de experiência de Corbeil na Ação Católica do Canadá, o arcebispo de São Paulo, já o cardeal Motta, tratou logo de aproveitá-la para o incentivo, no Brasil, desse importante movimento de propagação dos valores católicos. No início de 1945, Corbeil é nomeado Assistente Geral da Juventude Universitária Católica (JUC). "Estava muito confiante e entusiasmado", registra, dedicando-se com afinco a suas novas atividades junto aos jovens de 17 a 25 anos: reuniões, lançamentos de boletins e revistas, criação de uma editora católica, a Fides, conferências sobre teologia e moral, retiros, fundação da JUC feminina, encontros nacionais...

Em junho de 46, voltando de sua primeira viagem ao Canadá depois da chegada ao Brasil, Pe. Corbeil receberia mostras do resultado desse esforço: "Ao descer no aeroporto de Congonhas, ouvimos aplausos e gritos de alegria. Os passageiros ficaram estupefatos. Eram meus universitários da JUC que vieram me receber com meus dois estimados colegas".

Também fruto desse trabalho foi o interesse de alguns jovens brasileiros em ingressar na Congregação de Santa Cruz. José Amaral de Almeida Prado, ordenado em 53, foi a primeira vocação da Congregação na América do Sul.

Sonhos de Colégio

Membros de uma Congregação de educadores, os padres de Santa Cruz deram atenção especial ao apelo do cardeal Motta, arcebispo de São Paulo, que afirmava, desde janeiro de 46, preferir a fundação de um colégio a uma nova paróquia. A idéia ia virando ideal, projeto, esboço de sonho, mas não era realizável imediatamente, o que ficou demonstrado com a recusa da Congregação em atender a sugestão do arcebispo de adquirir um colégio tradicional que estava à venda: "Fiquei contente pois não gostava desse tipo de colégio, antigo, com bandeira na rua. Sonhava com um colégio novo, moderno, arejado, com um grande terreno e métodos pedagógicos avançados".

Em dezembro de 48, com a visita dos Superiores de Santa Cruz ao Brasil, cardeal Motta teria a oportunidade de insistir pessoalmente na importância da fundação do colégio, com a qual os Superiores mostraram-se claramente favoráveis. "O cardeal oferecia uma casa gratuita da diocese para iniciar; os amigos se comprometiam a colaborar financeiramente; a Cia. canadense Light de São Paulo se mostrava favorável a meu desejo de solicitar a doação de um de seus terrenos para a construção de nosso futuro colégio". Estavam cumpridas as condições do sonho grande: "Um colégio moderno, com linhas arquitetônicas simples, arejadas, no meio de belos jardins... uma comunidade escolar feliz, comunicante, ativa... uma escola que seria a segunda casa dos meninos... uma escola que respeitasse a imaginação, a inteligência, os dons criadores, que instigasse o espírito da pesquisa e a liberdade dos jovens... uma escola que permitisse ao professor a satisfação de realizar-se profissionalmente".

Em março de 1952, fundava-se o Ginásio Santa Cruz em uma casa emprestada pela Curia Metropolitana na Avenida Higienópolis, 890.

No dia 18 de dezembro de 1953, a Congregação recebia a doação da São Paulo Light and Power, sucursal da Brazilian Traction, de um terreno de 50 mil metros quadrados situado na atual localização do Colégio, no Alto de Pinheiros.

Construção dos primeiros pavilhões do Colégio Santa Cruz: sonho realizado.

por Alejandro Miguelez
publicado originalmente na Revista 50 anos, em setembro de 2002.

Padre Charbonneau, um humanista no Colégio Santa Cruz

Autor de 45 títulos sobre os mais variados temas, o padre canadense colaborou para que se consolidasse a proposta pedagógica de formação integral.

Ao ver-se diante de casais que, buscando os seus conselhos, revelavam dificuldades em cultivar ao mesmo tempo o relacionamento amoroso e o caminho da fé, Padre Charbonneau percebeu estar lidando com algo que ultrapassava o âmbito meramente individual. Deu-se conta de que aqueles maridos e mulheres viviam problemas de seu tempo, e não apenas dificuldades nascidas da própria relação. Conforme seu relato, teve uma espécie de iluminação: "A dúvida nasceu em mim, e, em seguida, uma clara intuição de que outros caminhos deveriam existir".

No que diz respeito ao casamento, a sentença assinala o fato de Charbonneau ter notado como a liberalização sexual colocava problemas para uma relação estável - algo decisivo para que estruturasse o encontro de casais tal como milhares de pessoas o conheceram na década de 1960. Mas não parece fora de propósito tomá-la como síntese da percepção de um homem que, sempre atento às condições de sua época, jamais deixou de buscar novos caminhos.

Sua trajetória no Colégio Santa Cruz talvez seja um dos mais perfeitos exemplos. Transferido para o Brasil em 1959, após membros da Congregação de Santa Cruz terem notado seu talento para o ensino da filosofia, este canadense nascido na província de Québec em 1925 envolveu-se intensamente com a comunidade, assumindo a vice-direção em 1965, cargo que exerceu até 1987, ano de sua morte.

Charbonneau tornou-se querido como colega, professor e conselheiro. Em Padre Corbeil, diretor do colégio de 1952 a 1992, encontrou um grande parceiro e um estimado amigo. Desenvolveu o projeto pedagógico idealizado por este fundador do Santa Cruz - sem, contudo, deixar de dar as suas próprias contribuições ao plano de ensino que se consolidaria na década de 1970.

O comprometimento de Charbonneau com o projeto de formação humanista torna-se patente no livro A escola moderna, uma experiência brasileira: o Colégio Santa Cruz, de 1973, em que argumenta: "Nós, adultos, vivemos de certo modo no antes; os jovens vivem já no depois e, se nós pretendemos acompanhá-los, é preciso pôr termo à nossa incompreensível nostalgia e partir com eles para a invenção".

Identificando e expondo a crise da sociedade pós-industrial, o autor defende a profunda reformulação da instituição de ensino - que, segundo escreve, teria deixado de ser o espaço da tradição para se consolidar como o centro da contestação. Diante disso, já não bastava que o professor transmitisse o conhecimento. Era preciso produzi-lo e recriá-lo, em dimensão interdisciplinar, com os alunos.

Apostando, portanto, na necessidade de a escola se dirigir sobretudo a pessoas, vistas como seres completos, e não apenas como alunos, o autor oferece diversas definições para a palavra "educação" - todas, porém, essencialmente próximas: "tornar o homem cada vez mais homem", "suscitar [nos candidatos] a grandeza"; "conduzir o indivíduo a explorar ao máximo a sua capacidade intelectual"; "torná-lo primeiro capaz de escolha, mas também de empenhar-se eficazmente na sua escolha".

Essa crença profunda na capacidade humana de encontrar a sua própria grandeza será, aliás, a principal marca de seus escritos - seja qual for o tema em questão: sexualidade, drogas, adolescência, Deus, casamento, ciência e política. Nada mais natural, portanto, que este homem de fé houvesse se enveredado pela educação.

Ao interesse pela dimensão existencial do homem Charbonneau aliará contundentes reflexões sociais. Um dos ápices desse encontro está em Crônica da solidão, de 1984, no qual, ao investigar a intransponível solidão inerente ao homem, afirma: "Nossa sociedade não passa de uma sociedade, nada mais. Uma reunião de homens que têm em comum certas características acidentais".

O raciocínio conduzirá o autor à demonstração de que estar só é condição essencial da plenitude - e que no encontro consigo mesmo o homem se prepara para a verdadeira solidariedade e para a descoberta da fé. Ou, nos termos de O homem à procura de Deus (1981), em que o mesmo problema se apresenta: "é entregando-se à escuta da existência que o homem parte para a descoberta de Deus".

A prosa de Charbonneau, desenvolvida em torno de questões ontológicas e metafísicas, frequentemente apresenta vigor poético e invariavelmente se sustenta sobre o amplo repertório constituído por um homem disciplinado e obstinado em seus estudos. Sua biblioteca particular, hoje disponível para consulta no Colégio, conta com cerca de 3 mil volumes. E suas fichas de estudo, através das quais cultivou o hábito de indexar trechos de obras com assuntos sobre os quais se interessava, somam mais de 70 mil.

Essas pequenas folhas pautadas são o símbolo concreto de um pensamento que buscava na realidade imediata a manifestação dos problemas estudados com afinco nas páginas dos livros. Seu exemplar de São Bernardo, de Graciliano Ramos, por exemplo, teve transcritos trechos relacionados a "comunismo", "educação", "justiça", "política", entre outros (consulte-os aqui). Em um deles, o narrador afirma: "Que há urgências de reforma, há. Quanto ao comunismo, lorota, não pega".

Descontada a estilização própria da ficção, o pensamento da personagem Paulo Honório talvez haja proporcionado um momento de identificação a Charbonneau - dado que sua atuação durante a ditadura militar brasileira teve sempre o sentido de mobilizar os setores de direita para reformas necessárias à sociedade e então reivindicadas pela esquerda, como o caso da reforma agrária.

Seu empenho em direção ao mundo exterior, tão contundente quanto o interesse por questões existenciais, levou-o a uma rotina intensa, dividida entre os compromissos no Colégio Santa Cruz, a apresentação de palestras e conferências, a participação em eventos políticos, a colaboração para a imprensa e a mídia, a elaboração dos encontros de casais e muitos outros afazeres. Tal ritmo, descrito em detalhes por Alberto Martins em Charbonneau: ensaio e retrato, talvez tenha sido a causa da hemorragia cerebral que o atingiu durante uma conferência que promovia no Colégio Madre Cabrini, em São Paulo. Levado ao hospital, Paul-Eugène Charbonneau morreu um mês depois, no dia 11 de setembro de 1987, aos 61 anos.

Um Colégio Congregado

A história da Congregação de Santa Cruz no olhar do educador José Amaral de Almeida Prado, seu primeiro padre brasileiro.

De passos decididos e olhar zeloso, padre José costuma caminhar nos jardins e ruas do Colégio Santa Cruz, entretido em afazeres, mas com uma disposição enorme para rever amigos, renovar leituras e manter seu correio eletrônico. Desde sua nova residência na confortável casa dos padres, percorre dois quarteirões, sempre de boné na cabeça, para chegar ao Colégio, onde habitou por muitos anos o atual prédio da Educação Infantil.

Ao conversar com ele, nota-se ainda intacto o espírito instigador e determinado que iria transformá-lo, em 1953, no primeiro padre da Congregação de Santa Cruz na América Latina: "Quando cheguei de São Carlos, era seminarista diocesano e já tinha um entusiasmo especial pela Ação Católica, que eu achava que era o movimento adequado para a época, com mais atitude, mais pulso. Foi isso que me fez derivar, com menos de 20 anos de idade, para a Congregação de Santa Cruz".

Em dezembro de 1946, padre Corbeil receberia a seguinte descrição de seu primeiro postulante: "ótimo caráter, inteligente, estudioso, aquisição excelente para sua Congregação". Sem hesitação, tratou logo de aceitá-lo: o jovem José cursaria três anos de filosofia, no Seminário Maior de São Paulo, e mais cinco anos no Canadá, entre o noviciado e o curso de teologia.

Dos poucos brasileiros da Congregação, padre José fala de Santa Cruz com amor e paciência, preferindo, como bom professor, começar do início.

Origem da Congregação de Santa Cruz

Em 1835, no agitado período que se seguiu à Revolução Francesa, padre Basil Moureau fundou a Congregação de Santa Cruz na cidade francesa de Le Mans. "Por ser camponês", ensina padre José, "nosso fundador mobilizava a tradição religiosa do povo rural da França, tentando reunir esforços para a recuperação das estruturas arrasadas da Igreja, sem seus seminários, colégios, hospitais e sem dinheiro para as paróquias".
Já nos primeiros anos, a Congregação de Santa Cruz alargaria suas fronteiras de atuação e acabaria, ao longo de sua história, por ocupar-se da administração de numerosos e importantes estabelecimentos de ensino.

A presença no Canadá

Os religiosos de Santa Cruz chegaram ao Canadá em 1847 com a tarefa de reconstruir o sistema escolar franco-canadense, desmantelado pelos ingleses um século antes. A influência de Santa Cruz e de outras ordens religiosas no Quebec foi tão intensa que ultrapassou a área educacional. Padre José lembra: "A cultura era extremamente católica, eclesiástica e clerical. O pároco tinha autoridade até para fechar uma cervejaria nos vilarejos".

Segunda guerra e Brasil

Outro indício da prosperidade da Congregação na América do Norte eram as numerosas ordenações, que expandiam a ação dos religiosos, inclusive para as Índias. Durante a 2ª guerra, com o fechamento das missões de Santa Cruz existentes, decidiu-se estabelecer fundações na América Latina. "O arcebispo de São Paulo parece ter causado uma boa impressão", deduz padre José.

Os padres educadores

Durante os primeiros 15 anos, o Colégio Santa Cruz foi um colégio de padres, já que, além de lecionar, ocupavam todos os cargos de direção. Recém-chegados do Canadá, os jovens eram encaminhados para cursos de especialização e integrados à equipe, que chegou a contar, em 1962, com 12 religiosos. Padre José confirma: "Quando eu voltei do Canadá, já padre, entrei na USP, na Maria Antônia, e fiz Letras Neolatinas. Fui formado pela Congregação para trabalhar no Colégio, onde dei aulas de Latim, Português e Religião, de 1955 a 1964".

Acostumados ao clero europeu sisudo e austero da época, os paulistanos pareciam se identificar com o ar renovado dos padres canadenses, "sorridentes, esportivos, cantores, expansivos, abertos". Mas era um cotidiano intenso, como lembra padre José: "A única folga que tínhamos era no sábado à tarde... uma rotina pesada, missa diária, cedo, aulas de manhã e de tarde, uma ativa vida comunitária, responsabilidade por turmas... Era um cotidiano muito disciplinado mas com uma bela convivência".

No fim dos anos 60, o Colégio sentiria, como todas as instituições religiosas, os efeitos da revolução cultural e moral que atingia o mundo. Sem novos padres do Canadá e com o desfalque de muitos dos que aqui estavam, o Colégio passaria por um intenso processo de laicização. "Nos anos 70, a maioria dos padres já estava fora do Colégio: na Paróquia do Jaguaré, de Mauá, em Campinas, na formação de jovens estudantes. Mas Santa Cruz confiava nos professores leigos. O Colégio não se ressentiu na sua eficácia pedagógica pela saída dos padres."

Dimensão Social

Nos anos seguintes, o Colégio democratizaria seu ensino, abrindo matrículas para ambos os sexos e para o novo curso supletivo. Dessa forma, os padres que restaram reforçavam uma das prioridades da Congregação de Santa Cruz, "uma escolha clara e profética a favor dos pobres e oprimidos". Padre José pondera: "O Santa Cruz é um colégio de elite. Mas, desde os anos 60, tem tomado consciência de que tem uma responsabilidade social. Hoje, essa consciência está atingindo a própria estrutura do Colégio, seu currículo. Enquanto mantiver essa preocupação social, o Colégio vale a pena como uma instituição religiosa e católica. A Congregação se realiza nesse veículo de evangelização".

Colégio: congregação de forças

Padre José respira fundo. Parece estar no final de sua lição. "A Congregação é uma parceira do Colégio, que é fruto do trabalho dos padres, mas também da comunidade. Ao planejar o futuro do Colégio, o interesse de todos deve ser considerado e a responsabilidade deve ser compartilhada". E arremata: "O Colégio tem progredido muito. Eu não sou saudosista, o projeto carrega seu passado com orgulho. Valeu a pena fundar um colégio".

por Alejandro Miguelez
publicado originalmente na Revista 50 anos, em setembro de 2002.

Santo André Bessette

Idealizador do maior Oratório de São José no mundo, Irmão André, de crença e humildade inabaláveis, rejeitava a fama de milagreiro.

O primeiro religioso da Congregação de Santa Cruz a ser canonizado foi um homem humilde e determinado, exaltado por padre Charbonneau pela "simplicidade de seu caminhar". Irmão André, nascido Alfredo Bessette em 9 de agosto de 1845, em Saint-Grégoire, lugarejo a leste de Montreal, no Canadá, tornou-se santo "simplesmente pelo que foi", escreveu em 1984 um dos idealizadores do Colégio Santa Cruz e apoiadores da causa da beatificação.

Santo André Bessette, como será invocado a partir de 17 de outubro de 2010, popularizou-se como fazedor de milagres. Na portaria do Colégio Notre Dame, em Montreal, onde trabalhou por mais de quarenta anos, era frequentemente procurado por fiéis, que relatavam suas dúvidas, atribulações e doenças. O religioso lhes dedicava atenção e aplicava nos corpos doentes óleo queimado, sob preces a São José.

André rejeitava, contudo, a fama que levou o colégio da Congregação a proibir visitas à portaria, destinando um galpão para o atendimento, já que crescia o número de visitantes. E, para quem se admirava das curas, dizia: "Eu sou apenas o cachorrinho de José", referindo-se com humor a sua devoção.

Talvez se trate, aliás, de um dos mais notórios devotos de São José. Foi de seu esforço, afinal, que nasceu o maior oratório no mundo dedicado a esse santo, no topo do Monte Royal, em Montreal. André insistia em que um dia o disputado terreno seria propriedade da Congregação, contrariando a expectativa geral, pois o dono anterior jurara jamais vendê-lo aos padres. Quando, em 1896, a posse se tornou real, o irmão passou a juntar economias para a construção. Como marco inicial dessa trajetória, fixou no tronco de uma árvore uma medalha de São José.

A partir de então, as alturas do monte se tornaram o destino preferido do religioso. Habituado a longas horas de preces - corria o epíteto de "campeão de joelhos" -, André dirigia-se ao local durante a noite, enquanto todos dormiam. Em seguida, trocou a medalha por uma estatueta, reafirmando sua crença no destino do terreno. E, em 1904, o irmão finalmente subiu acompanhado: uma procissão inaugurava a capela no Monte Royal. A construção foi ampliada, o local cresceu. No fim da vida do devoto, ergueu-se a basílica existente hoje. Somente após sua morte, contudo, a cúpula foi totalmente acabada.

Embora o santuário seja hoje o símbolo da perseverança desse homem, seu comportamento era visto por alguns membros do círculo com preconceito ou desprezo. Foi necessária a intervenção de Dom Inácio Bourget, bispo de Montreal, para que André emitisse os votos religiosos - ainda assim, pôde fazê-lo apenas dois anos após a entrada para a Congregação. E mesmo esta ocorreu apenas porque André Provençal, vigário de Saint-Césaire, que preparara o menino Alfredo para a Eucaristia, recomendou-o aos padres da Santa Cruz com um bilhete: "Envio-lhes um santo".

Foi em homenagem ao vigário que Alfredo, ao ingressar na Santa Cruz, batizou-se André. E foi também por influência desse padre que intensificou a admiração por São José - motivada, como é possível supor, por alguma identificação: a tenacidade com que enfrentava tarefas penosas em busca de sustento suscita aproximações com o carpinteiro pai de Jesus.

Desde criança, aliás, Alfredo teve de lidar com dificuldades. Dos doze filhos de Isac e Clotilde, era o de saúde mais debilitada. Aos nove anos, perdeu o pai, atingido pelo tronco de uma árvore que abatera durante um trabalho em Farnham, na província canadense de Quebec. O ocorrido fez com que a família se dispersasse, pois não havia dinheiro para mantê-los juntos. O menino, contudo, por sua fragilidade, permaneceu com a mãe. Tísica, ela morreu dois anos depois.

Alfredo foi acolhido pelos tios, mas, incomodado por depender de familiares com recursos também limitados, começou a trabalhar aos 12 anos, inicialmente como auxiliar de sapateiro. A partir de então, realizou sempre serviços humildes e que frequentemente lhe atacavam a saúde. Nos Estados Unidos, onde viveu por três anos por lhe faltar trabalho no Canadá, cuidou de fazendas e chácaras.

No livro O colecionador de muletas, em que elabora um perfil de Alfredo Bessette, Afonso de Santa Cruz narra que, ao voltar de visitas a doentes, o religioso comentava: "Interessante, quando visitava algumas cidades, acontecia no exato dia de haver uma grande festa". O irmão parecia não ser capaz de reconhecer que a movimentação se dava justamente em torno de sua figura.

Em 6 de janeiro de 1937, quando morreu André, aos 91 anos, mais de um milhão e meio de fiéis visitaram o Santuário de São José, onde o corpo foi exposto. A beatificação se iniciou três anos depois, pelo Papa Pio XII. No dia 17 de outubro, Bento XVI concluiu o processo que torna Irmão André o santo André Bessette - ou, nas palavras de Afonso de Santa Cruz, "o símbolo mais eloquente dessa família religiosa".

Pequena crônica de um Ideal

Os efeitos da Segunda Guerra se espalharam para muito além das trincheiras, dos alvos, das perdas: mesmo que estivesse seguro em um país distante da morte e do terror, nenhum homem estaria completamente isento, livre. Nenhuma alma poderia estar impermeável à dor da humanidade, principalmente se essa alma fosse jovem, corajosa, cheia de sonhos. Enquanto a violência abalava e mutilava nações, homens e ideais, alguns sabiam que toda essa dor poderia ajudar a preparar uma sociedade mais justa num mundo renovado. Era necessário acreditar na aventura do homem, na reconstrução de sua história. Em novembro de 1944, o jovem Padre Lionel Corbeil, bacharel em Filosofia, Teologia e Ciências Sociais, atravessou de trem a costa leste dos Estados Unidos. Um considerável percurso de Montreal a Miami... mais cinco dias de avião de Miami ao Rio de Janeiro. Isso tudo não era muito para o tamanho da aventura que iniciava. Era quase nada para quem sonha. Quando se tem 25 anos, como Lionel, o futuro é muito tempo.

São Paulo, 1944

Durante séculos a América Latina assistiu à chegada de estrangeiros: durante tanto tempo ela foi o "Eldorado", o "Novo Mundo", a "Terra à Vista" daqueles que esperavam ampliar os próprios horizontes. E durante tanto tempo foi colonizada, devassada, catequizada, que os tardios pioneiros da Congregação de Santa Cruz poderiam ter passado despercebidos aos olhos submissos dessa história cultural. Mas esses anchietas modernos estavam destinados a uma tarefa humanitária e humanizadora. Pastoral universitária, pastoral operária, pastoral paroquial... Por que não fundar uma escola?

São Paulo, 1952: o sonho do Padre Corbeil

"...Um colégio moderno, com linhas arquitetônicas simples, arejadas, no meio de belos jardins... uma comunidade escolar feliz, comunicante, ativa... uma escola que seria a segunda casa dos meninos... uma escola que respeitasse a imaginação, a inteligência, os dons criadores, que instigasse o espírito da pesquisa e a liberdade dos jovens... uma escola que permitisse ao professor a satisfação de realizar-se profissionalmente."

Mas não havia casa, nem terreno, nem dinheiro.

O sonho estava destinado a intervir na realidade, porque o inconformismo é característica do verdadeiro educador. Nasce da insatisfação. Não de uma insatisfação ávida e vazia, que ignora a riqueza que possui para correr em busca da que lhe foge; mas a insatisfação salutar daquele para quem o passado perderia seu significado, se não fosse a garantia do futuro. O futuro é um apelo.

Numa casa emprestada pela Cúria Metropolitana teve início o Colégio Santa Cruz. Duas classes de 1ª série ginasial, sessenta alunos. Era pouco frente às dimensões do imaginado; mas o futuro ainda haveria de ser muito tempo.

Periferia de São Paulo, 1957

Nessa época, o Alto de Pinheiros era recortado por estradas de terra; vacas pastavam eventualmente diante das salas de aula. O amplo terreno em que foram construídos os primeiros pavilhões do Colégio Santa Cruz era pantanoso, isolado, distante. Mas algumas coisas o tempo transforma sem deixar envelhecer: quando nasceu, o Pátio do Colégio ainda não era o coração paulistano, ou a semente da cidade... Era apenas uma escola de jesuítas, no planalto de Piratininga.

Colégio Santa Cruz, 1966

No gabinete do Padre Charbonneau alinham-se livros, ideias, palavras: "Agir é antes de tudo pensar". Padre Charbonneau era um pensador, daí suas ações serem eternas, fixadas em palavras que o tempo não desmancha e que podem ensinar indefinidamente. Seu texto vigoroso, inquieto, afirmativo foi um dos alicerces filosóficos da educação inovadora que se processava havia já onze anos.

"Compete-nos afirmar nossa fé no trabalho da educação. Somos educadores, e nossa vida inteira se consagra a esta tarefa: construir homens."

"A juventude mora dentro de nós. Não somos nós que estamos no meio dela, como se tivéssemos saltado de paraquedas de uma outra geração com a missão de colonizá-la ou de subjugá-la. É ela que está em nós e nos atropela, e nos empurra para a frente."

"Cada ano uma nova colheita sai de nossas mãos e diante dela mil interrogações nos assaltam e então nos perguntamos o que fizemos dessas crianças que se tornaram homens recebendo de nós o seu alento, pois o educador, como o Criador, é aquele que insufla o espírito."

"Cada ano se ergue diante de nós uma fatia de geração sobre a qual vamos imprimir nossa marca, fazendo-a crescer de acordo com os imperativos que nos conduzem. Cada jovem nos surpreende, cada jovem recebemos com indizível respeito, pois cada um é a humanidade inteira."

"Somos inquietos. Porque os jovens nos empurram no caminho da existência e nos forçam todos os dias a nos fazermos cem perguntas insolúveis; porque exigem de nós respostas; porque todas as manhãs, na luz do dia que desponta, erguem à nossa frente o impenetrável mistério do homem; porque nos perguntam como tornar-se homem e por que tornar-se cristão... Eles nos tiram o repouso do espírito e não nos deixam parar."

1970, a crítica

Ninguém tinha mais dúvidas. O projeto de excelência era uma realidade. Desde a fundação, o Colégio Santa Cruz sempre se preocupou com o aprimoramento de seu ensino: a seleção rigorosa de alunos, a busca constante pelos melhores métodos psicopedagógicos, educadores preparados nos diversos ramos do conhecimento, um corpo docente cuidadosamente escolhido, a abertura de classes experimentais, a sólida formação geral dos estudantes, o senso da liberdade responsável, o espírito comunitário, a preparação para a universidade

Mas essa qualidade gerava equívocos. O sistema de excelência intelectual limitava a seleção dos alunos a uma classe social privilegiada e, por isso, escolarmente mais bem preparada. Além dessa exigência, a estrutura e os objetivos faziam do Colégio uma escola dispendiosa e que, na prática, servia a uma classe social elevada. Os padres do Santa Cruz tinham consciência da obrigação de educar e evangelizar todos e, em consequência, também os mais privilegiados; estavam, entretanto, plenamente conscientes do mal que existe em educar e evangelizar apenas estes.

Outro problema que se afigurava era a necessidade de impedir que a orientação espiritual e o ensino religioso fossem negligenciados. A duplicidade de função dos padres dificultava sua indispensável dedicação evangélica.

1974, a democratização, a desclericalização

O Colégio amplia significativamente sua dimensão educadora. Por mais de vinte anos foi exclusivamente masculino, e sua organização pedagógica envolvia apenas as quatro séries finais do Curso de 1º Grau, além do Curso Colegial. Nesse ano, as meninas começam a participar desse universo educacional, que agora se abre também para as crianças, com a formação do Curso Primário (séries iniciais do Primeiro Grau).

Início do Curso Supletivo noturno: ensino de qualidade amplamente subsidiado por recursos do próprio Colégio. Se as contradições sociais do país e a carência formativa do trabalhador parecem longe de serem abrandadas por iniciativas oficiais, o Santa Cruz reafirma o sonho de seus pioneiros e abre suas portas, ilumina suas salas e organiza um projeto especialmente voltado aos desfavorecidos.

Desclericalizar o Colégio foi uma opção da Congregação. O abandono progressivo dos cargos administrativos e de direção ainda assumidos pelos padres e a consequente transferência aos educadores leigos significaria concentrar a dedicação dos padres nas atividades externas de evangelização. Ampliar a ação pastoral, para além dos limites da educação, sem abdicar dela.

1987, a perda

Padre Charbonneau morreu em 1987. Sua biblioteca está no mesmo lugar. Seus livros estão alinhados; milhares de citações, referências, pensamentos estão rigorosamente arquivados. Tudo parece repousar, à revelia do espírito perturbador de seu autor. Mas, verdadeiramente, sua literatura pulsa, contestando o tempo, criando o amanhã, alentando as dúvidas, apontando sabedoria e estimulando o Colégio Santa Cruz nessa tarefa de fazer crescer o homem e conduzi-lo à liberdade.

1993, nova direção

Padre Corbeil transfere a responsabilidade por seu legado ao professor Luiz Eduardo e sua equipe de educadores, completando o processo de desclericalização do Colégio.

2000, educação infantil

O Colégio amplia o projeto educacional para as crianças e cria o curso de Educação Infantil.

2001, nova perda

Quase cinquenta anos depois de fundado seu sonho de Colégio, Padre Corbeil morre, afastando-se inexoravelmente de sua obra. Esse longo fio de tempo que liga os homens, cada um passando ao outro sua luz, sua experiência, seu lugar, é a matéria-prima da vida, renascer contínuo. Nos últimos anos, Padre Lionel Corbeil pôde contemplar seu passado, que um dia foi um futuro cheio de indagações. Aos que ficam, cumpre reiniciar a busca incessante de respostas a novos problemas que um novo futuro multiplica.

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