"Para possuir o que herdaste de teus pais, tens que ganhá-lo". Goethe
Uma herança é um presente, mas também um trabalho contínuo para seu merecimento. Para conseguir carregá-la e ampliá-la, é necessário ter consciência de seu significado e sua história. A escola deveria ser um lugar de conscientização das nossas heranças, porque ela se propõe, desde a antiguidade, a buscar o conhecimento, tanto quanto a compreensão da realidade.
Entretanto, para educar com tais objetivos, é necessário um investimento cuidadoso e de longo percurso, coerente com a capacidade das crianças de lidarem pouco a pouco com processos cada vez mais complexos de raciocínio.
Nas primeiras séries, em virtude do processo inconcluso de formação da escrita e do raciocínio operatório, é muito forte o predomínio da oralidade e do pensamento concreto no processo de conhecimento. Além disso, crianças dessa idade se interessam pela fantasia e têm fascínio pela ficção. Por outro lado, carecem da conceituação do tempo histórico e da compreensão de fatos desconectados de sua pessoalidade ou sem concretude em sua realidade e experiência.
Essa condição define o objetivo pedagógico primordial de construção de conceitos históricos, especialmente através do trabalho de observação, análise de documentos históricos, relatos e iconografia.
De acordo com os Parâmetros Curriculares, faz parte do conhecimento de História e Geografia refletir sobre a multiplicidade de espaços geográficos, de sujeitos e tempos históricos, a fim de se romper com uma concepção determinista e evolucionista, que concebe a História como uma sucessão causal e cronológica de acontecimentos.
Nessa perspectiva, o ensino de História e Geografia busca compreender o homem e como este se relacionou com seu meio, através do tempo; além disso, propõe-se a refletir sobre a realidade atual e desenvolver nos alunos atitudes de solidariedade e compromisso com as gerações futuras. Paralelamente, no decorrer das séries, desenvolve-se a alfabetização cartográfica e a iniciação ao estudo do meio.
O tema central do 2º ano, série em que se inicia sistematicamente o curso de História, é conhecer-se e conhecer o outro, partindo do microcosmo sociocultural do Santa Cruz em direção a outras realidades escolares. Há um trabalho de desvendar a história da escola; relatar sua experiência escolar; representar espaços de modo esquemático (plantas e mapas); pesquisar sobre outras escolas contemporâneas no território brasileiro; colher, de cartas escritas pelos avós, informações significativas sobre sua vivência escolar infantil. Desse modo, a criança adquire lenta e concretamente uma noção de tempo e de transformação a partir de si mesma e seu contexto, a escola.
O tema inicial do 3º ano é a transformação da cidade de São Paulo nos últimos 100 anos, a partir do tema nuclear da água: rios e mananciais, canalização e tratamento. Esse estudo enseja um pouco da história de seus habitantes, seus espaços, seus costumes e sua linguagem nesse período de tempo. Apoiados na literatura, no estudo do meio, em iconografia e documentos históricos, as crianças realizam um projeto de forte característica interdisciplinar, investigando diferenças e semelhanças entre gerações, valores que permanecem e se transformam, modificações do espaço urbano e alterações no meio ambiente. Esse estudo motiva e fundamenta o tema nuclear do curso de História e Geografia nessa série (3º ano) e nas seguintes (4º e 5º ano): “quem sou, quem somos”. Quanto maior a necessidade de encontrar uma resposta para o sentido de nossa vida, mais se torna indispensável conhecer nossas relações com o passado, com a história humana em que fomos gerados e crescemos. Nossa vida pessoal certamente está voltada para o futuro; mas não conseguimos entender nada sem nos apoiar no passado e na tradição cultural que torna a realidade presente compreensível.
Nesse tema, está ancorado o estudo do homem e da cultura brasileira. A obra de Darcy Ribeiro — O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil — é a espinha dorsal do curso de História e Geografia e a fonte principal de pesquisa e conhecimento da formação humana, da transformação do espaço e da produção cultural brasileira. No 3º ano, inicia-se esse percurso com o estudo da matriz tupi, uma das três que compõem o acervo do homem brasileiro. No 4º ano, as matrizes lusa e africana fecham esse capítulo da História e introduzem os demais, que se distribuem nessa série (4º ano) e na última do ciclo (5º ano). De acordo com a tese de Darcy Ribeiro, apresenta-se em seguida o encontro conturbado entre essas matrizes geradoras dos brasileiros, que foram se locomovendo e concentrando, no decorrer de cinco séculos, em vários espaços do Brasil. A Amazônia constitui o Brasil caboclo; o Nordeste, o Brasil sertanejo; o litoral atlântico até o sul da Bahia, o Brasil crioulo; o espaço que abrange São Paulo, sul de Minas, sul de Goiás, parte do Pantanal e do interior fluminense é o Brasil caipira; e a região ao sul de São Paulo até os pampas é o Brasil sulino.
Saberes de natureza diversa, como Ciência, Literatura, Ensino Religioso e Artes, se entrelaçam à área de História e Geografia; todos eles interpretam a cultura, o conhecimento e a expressão construídos na História e que todos herdamos, querendo ou não, por vivermos em uma nação e em um espaço comum.
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