OS PILARES DO PROJETO
O pilar inicial da concepção filosófica do Curso de Educação Infantil pode ser representado pelo verbo cuidar — cuja riqueza de sentidos sintetiza a ação de educar nesses primeiros anos da escolaridade. Cuidar abrange as ações de meditar, realizar com atenção, interessar-se e responsabilizar-se, acolher. Cuidar traduz uma concepção amorosa da instância educativa. O amor é a primeira dentre as várias etapas da educação: consiste no primeiro aconchego, privado, da família. Embora numa dimensão voltada ao coletivo, essa forma de condução deve permanecer na escola, o espaço público que haverá de apresentar o mundo à criança.
O segundo pilar da Educação Infantil está no brincar, no sentido de desfrutar, entreter-se, representar papéis fictícios. Os jogos infantis permitem o prazer de manipular o tempo, imaginar o futuro, desvendar o presente, e, especialmente, permitir à criança crescer. Segundo Freud, "o jogo da criança é regido por seus desejos, ou, mais precisamente, por aquele desejo que facilita sua educação: o de ser grande, de parecer com os adultos. A criança sempre brinca de 'ser maior', imitando as atividades adultas enquanto as pesquisa, sem encontrar nenhum motivo para ocultar este desejo." O desejo de ser adulto corresponde à confiança no mundo adulto, à aceitação implícita da cultura, da linguagem escrita, da autonomia, do trabalho. Estimular os jogos simbólicos e dramáticos, as brincadeiras livres e tradicionais é abrir caminho para o sentido profundo da educação.
Conhecer, o terceiro de nossos pilares, é um verbo de muitas nuances. Evoca a sequência gradativa do conhecimento: estar aberto a, perceber, experimentar, relacionar-se, tomar consciência, saber. Abrange inicialmente a experiência da admiração: olhar seguidamente as coisas do mundo como se fosse pela primeira vez, imaginando e apreendendo explicações para a vida, a natureza, o tempo; e culmina com o autoconhecimento, pois conhecer inclui o conhecer-se, distinguir-se; e essa conquista só é possível a partir da percepção e da aceitação do outro.
"O poder e a capacidade de aprender já existem na alma; e, assim como o olho é incapaz de voltar-se das trevas para a luz sem ser acompanhado do corpo inteiro, também a faculdade de conhecer só pode apartar-se do mundo das coisas contingentes por meio de um movimento da alma inteira, até que esteja em condições de enfrentar a contemplação do ser, inclusive da parte mais brilhante do ser, que é o que chamamos a ideia do bem."(Platão, "República")
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